Abandono e insegurança tomam conta do Guará II
Moradores denunciam abandono, insegurança, lixo e suspeita de tráfico em área do Distrito Federal

Um dos bairros mais tradicionais de Brasília, o Guará II, parece ter sido esquecido pelo poder público. Enquanto a parte mais antiga da região administrativa — o Guará I — ainda recebe manutenção básica e limpeza regular, moradores do Guará II convivem com o mato alto, entulho acumulado nas calçadas, insegurança crescente e uma sensação coletiva de abandono. A violência se alastra, o tráfico de drogas avança sobre áreas residenciais, e a atuação da Administração Regional tem se limitado a cortar a grama da avenida principal, ignorando os problemas mais graves das quadras periféricas.
Entre os pontos mais críticos está o Polo de Modas, conhecido centro comercial do Guará II, que hoje acumula queixas de desordem, barulho excessivo, consumo de álcool e circulação suspeita de entorpecentes. Moradores relatam o medo constante, especialmente durante a noite, quando grupos se reúnem em frente a distribuidoras que, segundo denúncias, estariam funcionando como pontos de venda e consumo de drogas.
Um morador da Rua 10, no Polo de Modas, que preferiu não se identificar por motivos de segurança, relata o cotidiano de medo em que vive: “Tenho 67 anos, moro aqui há mais de 20. Nunca vi o Guará II tão abandonado. Essas distribuidoras tomaram conta da rua, colocam cadeira pra fora, som alto, vira bar todo dia. Gente usando droga na porta de casa. Já chamei a polícia mais de dez vezes, mas ninguém faz nada. A PM diz que não é com eles, o DF Legal nunca aparece. A gente vive com medo”, desabafa.
Segundo o morador, a situação piora nos fins de semana, quando o movimento atrai dezenas de pessoas de outras regiões do DF. “É confusão, gritaria, e a rua vira banheiro. A vizinhança não dorme. É um descaso total da Administração do Guará. Aqui só cortam a grama da avenida principal. Só isso”, conclui.
Ele também denuncia que um cabo de alta tensão está partido ao meio em plena rua 10 do Guará II, já algumas semanas e ninguém toma providências. “Isso coloca a vida de todos em risco. Sujeira, crimes, violência é banal aqui é todos tratam isso de forma natural”, reclamou.

A comerciante Maria do Rosário Feitosa, de 49 anos, mora no Guará II há mais de uma década e também denuncia o abandono da região. Segundo ela, a falta de higiene urbana tem afetado diretamente a saúde e o dia a dia da população. “A sujeira é por toda parte. É lixo nas calçadas, entulho jogado perto das bocas de lobo, rato, barata. Tem lugar aqui que parece lixão. Essa administração não faz um bom trabalho. Só passam o cortador de grama na avenida principal e pronto. O resto é terra de ninguém”, afirma.
Rosário, que possui um pequeno comércio de alimentação nas proximidades da QE 40, relata que a falta de coleta regular de lixo e a ausência de fiscalização têm afastado clientes e ampliado a sensação de abandono. “A gente paga imposto, mas não vê retorno. O administrador regional fecha os olhos para o Guará II. A gente nem sabe o que ele faz. Se ele andasse por aqui, veria o estado das ruas. A única coisa que funciona de vez em quando é a roçagem no canteiro central. Fora isso, nada. Nenhum cuidado com a população”, protesta.
A reclamação de Rosário é compartilhada por muitos moradores e comerciantes da região. Nas redes sociais e grupos de bairro, é comum encontrar vídeos e relatos que denunciam o acúmulo de lixo, a degradação dos espaços públicos, a falta de segurança e a ausência de serviços básicos, como tapa-buracos, poda de árvores e iluminação adequada.
Embora façam parte da mesma Região Administrativa do Guará, o Guará I e o Guará II apresentam realidades urbanas visivelmente distintas. Enquanto o Guará I exibe vias bem cuidadas, canteiros limpos, iluminação pública em bom estado e presença mais constante de rondas policiais, o Guará II enfrenta um cenário de degradação. A diferença é perceptível logo na entrada de ambas as áreas. No Guará I, quadras como a QE 4 e a QE 12 mantêm calçadas acessíveis, praças limpas e manutenção regular das áreas verdes. Já no Guará II, moradores apontam que muitos espaços públicos estão completamente esquecidos, com postes quebrados, lixo acumulado, mato alto invadindo calçadas e ausência de ações estruturantes.

A desigualdade na prestação de serviços básicos entre as duas áreas acentua o sentimento de abandono e exclusão entre os moradores do Guará II. A impressão é de que há uma política seletiva de zeladoria urbana, onde apenas a parte mais visível ou politicamente relevante da região recebe atenção.
As denúncias se multiplicam, e o sentimento de abandono é generalizado entre os moradores do Guará II. A falta de higiene, a insegurança, a proliferação de pontos suspeitos de tráfico de drogas, o acúmulo de lixo e a ausência de fiscalização constante são problemas que exigem uma resposta imediata da Administração Regional do Guará, do GDF e dos órgãos de segurança pública. A reportagem procurou a Administração Regional do Guará para comentar as denúncias, mas até o fechamento desta edição não obteve retorno. O Cerrado em Pauta tentou contato com a Administração Regional, mas não obteve êxito.




