Especialista avalia como baixo o risco de surto do vírus Nipah no Brasil
Após novos casos registrados na Índia, infectologista explica formas de transmissão, sintomas e medidas de prevenção

O risco de o vírus Nipah chegar ao Brasil existe em função do intenso fluxo de viagens internacionais, mas a possibilidade de um surto no país é considerada baixa, segundo avaliação do infectologista Julio Croda, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
O alerta ocorre após a confirmação de um surto no estado de Bengala Ocidental, na Índia, onde houve registro de infecções entre profissionais de saúde e a adoção de medidas de quarentena para pessoas que tiveram contato com pacientes contaminados. A situação levou países vizinhos a reforçarem protocolos sanitários em aeroportos e pontos de entrada.
De acordo com Croda, embora seja possível que um viajante infectado introduza o vírus no Brasil, as características da transmissão reduzem significativamente o risco de disseminação comunitária. “O Nipah é transmitido principalmente por secreções e gotículas. Ele não é transmitido pelo ar, o que diminui muito o risco de contaminação quando comparado a doenças como Covid, influenza e sarampo”, explicou.
O vírus tem como principal reservatório morcegos frugívoros, comuns em diversas regiões da Ásia. A infecção costuma ocorrer por contato direto com esses animais ou pelo consumo de frutas contaminadas por saliva, urina ou fezes. Em países como Índia e Bangladesh, investigações recentes também associaram surtos ao consumo de seiva de tamareira contaminada.
A transmissão entre pessoas é possível, mas ocorre de forma pouco frequente e, geralmente, em ambientes fechados. Segundo o infectologista, esse tipo de contágio está mais associado ao contexto hospitalar. “A transmissão humano a humano é rara e, quando acontece, ocorre principalmente dentro dos hospitais, por contaminação nosocomial, muitas vezes associada à falta de equipamentos de proteção individual”, afirmou.
O período de incubação do vírus varia de três a 14 dias após a exposição. Os sintomas iniciais incluem febre, dor de cabeça, tosse e vômitos. Em casos mais graves, a infecção pode evoluir para pneumonia ou atingir o sistema nervoso central, provocando encefalite, uma inflamação no cérebro.
A letalidade do vírus Nipah é considerada elevada, com taxas que variam entre 40% e 75%, a depender do surto e da capacidade de resposta do sistema de saúde. Atualmente, não existe vacina nem tratamento específico, e o manejo clínico baseia-se em cuidados de suporte intensivo.
Para Croda, a chave para evitar a propagação da doença está na detecção precoce de casos importados. “É importante fazer vigilância ativa de viajantes que vêm da Índia, especialmente das regiões afetadas. Pessoas com febre associada a sintomas respiratórios ou neurológicos precisam ser investigadas e testadas por PCR”, ressaltou.
O especialista também defendeu que o Brasil mantenha hospitais de referência preparados para atendimento e isolamento de pacientes suspeitos. “Com diagnóstico rápido, uso adequado de equipamentos de proteção e isolamento, o risco de disseminação fica bastante reduzido”, concluiu.




