Política

Empresário acusado de fraudar biometria do INSS se cala na CPMI e revolta parlamentares

Igor Delecrode é apontado como responsável por esquema que desviou mais de R$ 1,4 bilhão de aposentados; relator fala em “vitória da impunidade”

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS viveu mais um dia de tensão com o silêncio do empresário Igor Dias Delecrode, apontado como um dos cérebros tecnológicos do esquema que teria desviado mais de R$ 1,4 bilhão de aposentados e pensionistas. Mesmo diante das acusações, o programador optou por não responder às perguntas dos parlamentares, amparado por um habeas corpus concedido pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Delecrode é acusado de desenvolver um sistema de fraude de biometria e assinaturas digitais, utilizado por entidades e associações para autorizar falsamente descontos em benefícios previdenciários. O esquema, desvendado pela Controladoria-Geral da União (CGU) e pela Polícia Federal, deu aparência de legalidade a milhares de transações fraudulentas.

Durante a sessão, o relator deputado Alfredo Gaspar (União-AL) fez duros ataques ao depoente e ao que chamou de “proteção judicial seletiva”.

— Ele virou multimilionário, transacionou mais de R$ 15 milhões em menos de um ano com invenção de ferramentas para tirar dinheiro de aposentados e pensionistas. É a vitória da impunidade. No Brasil, compensa praticar crimes — desabafou o parlamentar, ao afirmar que o empresário “meteu a mão com força no dinheiro do povo brasileiro”.

Gaspar afirmou ainda que o programador comandava um conglomerado de empresas de tecnologia ligadas a diferentes núcleos criminosos e que o sistema desenvolvido burlava mecanismos de verificação facial do INSS.

— Ele é o coração tecnológico da safadeza. Criou um conglomerado tecnológico e cada associação tinha um sistema de verificação independente. Se o Brasil fosse sério, esse elemento estaria preso, acusou o relator.

A presidência da CPMI, exercida pelo senador Carlos Viana (Podemos-MG), também criticou a decisão do Supremo. Para ele, os habeas corpus concedidos a investigados estão “esvaziando o poder investigativo do Congresso Nacional”.

— Isso é para nos fazer pensar o tanto que nós precisamos retomar a coragem institucional. Toda concentração excessiva de poder não faz bem à democracia. O Congresso precisa reagir, defendeu.

Outros parlamentares reforçaram as críticas. O senador Rogério Marinho (PL-RN) denunciou uma “jurisprudência de exceções” e cobrou equilíbrio entre os Poderes. Já Izalci Lucas (PL-DF) pediu que a comissão solicite ao ministro André Mendonça a prisão preventiva dos envolvidos.

O deputado Paulo Pimenta (PT-RS) classificou Delecrode como “um milionário de Ferraris e Lamborghinis sem nunca ter trabalhado na vida”, acusando-o de ser “o cérebro tecnológico das organizações criminosas”. Ele afirmou que algumas entidades ligadas ao investigado teriam conseguido 117 mil adesões fraudulentas em apenas um mês.

A senadora Eliziane Gama (PSD-MA) apontou a existência de apadrinhamento político no esquema e apresentou uma linha do tempo com decisões de governos anteriores que teriam facilitado as fraudes. Já Damares Alves (Republicanos-DF) disse que o acusado “está em uma grande enrascada” e criticou a falta de fiscalização estatal.

— Não pense que você é esperto. Nós te pegamos. Sua situação é gravíssima, afirmou a parlamentar.

A senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), por sua vez, reforçou que a CPMI tem atuado com rigor e prometeu que “a pizzaria não será no Congresso Nacional”. Ela estimou que as penas dos envolvidos podem chegar a 53 anos de prisão.

Ao final da sessão, a comissão aprovou por unanimidade a apreensão do celular de Igor Delecrode, que entregou o aparelho à Polícia Legislativa, mas se recusou a fornecer a senha de acesso.

— É um iPhone 17, comprado esta semana. Os outros já foram levados pela Polícia Federal e pela Civil, disse o depoente.

O deputado Alfredo Gaspar encerrou a reunião afirmando que o silêncio de Delecrode representa “um tapa na cara do povo brasileiro”. Para ele, a blindagem judicial e política de alguns investigados mostra “um Brasil dividido entre ricos protegidos e pobres punidos”.

“Enquanto o governo sorri diante das câmeras, os aposentados choram diante das contas. Transformaram o benefício dos idosos em objetos de luxo e ostentação. A verdade vai vencer o silêncio”, concluiu Carlos Viana.

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